quinta-feira, 13 de julho de 2017

Religio

Vou criar
um mundo
em mim
pra fugir e fingir
que tudo é assim
mesmo















Imagem: The deck of Gatti, by Osvaldo Menegazzi.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Sol 4018 *

Doce, doce
Mais doce que o Sol
- O lençol azul-celeste
Que te imita as formas,
Às vezes,
De manhã.


*Pelos 11 anos que passamos juntos. Te amo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

domingo, 4 de setembro de 2016

Ponto de virada

Ponto de virada pode ser qualquer coisa que marque uma mudança importante no rumo da vida ou na maneira como a vemos (ou as duas coisas juntas). Geometricamente falando, o ponto de virada (ou guinada) sugere que a mudança de direção ou do olhar se dê em qualquer ângulo, de uma simples correção de trajetória a um “meia volta, volver” seco e inesperado.

De certo modo, o início deste blog em 2009 se deu sob uma espécie de ponto de virada. Auge da faculdade de Letras, descoberta de autores e ideias inimaginavelmente insanos (lê-se fodas) para mim à época e, mais, de colegas e amigos, pessoas, gentes de carne e osso e cérebro, e de almas assustadoramente livres com as quais eu jamais havia topado nesse meio-de-mato bairrista e maniqueísta que, em linhas gerais, era (e É, salvo exceções) a Barbos Carcosa dos anos 2000.

A maioria dos textos (os de opinião, ao menos) seguiam um ritmo frenético, violento, de ironias e sarcasmos feitos propositalmente para ferir (por que não?) alguns baluartes do conservadorismo e deleitar meus ¾ de dúzia de fiéis leitores de então. Houve quem visse humor naqueles textos, mas provavelmente era só um tipo diferente de desespero.

Mas, buenas, tanto faz... Isso foi lá por 2009. Depois o ritmo acalmou, os assuntos não me tocavam mais e a ascensão do YouTube acabou por esvaziar de vez o pouco de gente que havia produzindo conteúdo no blogger e no wordpress. Sobraram somente os perfis mais profissionais e todo o resto caiu no mais insólito abandono da noite para o dia. Hoje resta somente um ou outro maluco que ainda alimenta seus blogs, escondidos lá nas profundezas da web, onde há tempos o Google perdeu o interesse em buscar o que quer que haja lá embaixo. Perdemos para a bolha da Internet. Você nunca mais vai encontrar algo interessante por acaso.

A “blogosfera” virou o reduto dos introvertidos (e egocêntricos também, vá lá) enquanto extrovertidos (e também egocêntricos, vá lá 2) pavoneiam-se no YouTube. E há gênios e idiotas nos dois times, acredite. O leitor que decida onde me encaixar.

Mas ainda não chegamos no ponto de virada.

O ponto é a resposta para a seguinte pergunta: por que diabos você vai voltar a falar sozinho nesse blog depois de mais de três anos de abandono? E a resposta é: eu não faço ideia. Ou, para ser mais bonito, podemos citar Renato Russo: “Alguma coisa aconteceu, do ventre nasce um novo coraçãããooooooo... Não penso em me vingar... blá, blá, blá...” (vocês gostam de citações, né?).

Talvez tenha a ver com a Casa dos espíritos, de Isabel Allende, que eu li há alguns meses. Talvez a ideia de escrever para leitores-fantasmas (como Clara fazia em seus “cadernos de anotar a vida”) tenha ficado no meu inconsciente, e vindo à tona com essa questão toda do golpe pelo qual estamos passando. Porque, sim, tenho quase certeza que ninguém vai acompanhar esse blog, exceto fantasmas.

A vantagem de escrever, (e, sobretudo, escrever para fantasmas) em vez de se expressar pelo YouTube, é que você pode desnudar sua alma com muito mais tranquilidade. Veja bem: até aqui foram 2987 caracteres distribuídos em 518 palavras, e posso afirmar com certa segurança que é possível confiar minimamente em quem dedicou seu tempo para ler tudo isso. E quem escreve por amor simplesmente confia em quem lê quase 3000 caracteres numa madrugada de sábado, sobretudo nesses líquidos anos 10 do profeta Bauman, de apelos visuais extremos e glórias instantâneas. Em outras palavras: vá desnudar sua alma no YouTube, depois me conte como foi.

Talvez essa seja a graça da coisa: se você ler 50% do que um autor qualquer escreve, você provavelmente o conhece melhor do que sua própria mãe! Se você ler 100% do que ele escreve, vai conhecê-lo melhor do que ele mesmo! Agora perceba: as coisas ficam terrivelmente mais interessantes quando seus leitores são fantasmas!

Então, para meus queridos gasparzinhos, as coisas vão funcionar assim: voltaremos a alimentar o blog. Entretanto, deste ponto em diante, ficarão de fora os textos de opinião. Volta e meia teremos alguma resenha de livro, filme ou o diabo, além de groselhas e tranqueiras, e os versos, reversos e remorsos que meus demônios julgarem importante deixar registrado em algum lugar mais nobre do que portas de banheiros.

Do lado de cá da web vamos tentar fazer melhor, porque desse ponto em diante É SÓ LADEIRA ABAIXO, amigos! E se você, querido leitor-fantasma, me encontrar na rua e tiver lido ao menos 50% do que eu deixei aqui, por favor, me conte quem eu sou! 

domingo, 9 de junho de 2013

Mega-Sena, sonhos de consumo e lembranças de infância

Há vinte anos atrás, meu sonho era ter trinta anos. Mas que merda de sonho era aquele?!” Declaração de um maluco de estrada

Eu estava almoçando alegremente quando, da mesa ao lado, ouvi uma voz dizendo à outra, com notas sensuais: “olha lá fora, meu sonho de consumo”.

Mesmo sabendo que a conversa não era comigo, não resisti e, discretamente, olhei pela janela: um veloster.

Olhei de novo à procura de uma “porscheta”, uma “ferrarinha” ou uma “lamborgheta”, mas não. O sonho de consumo do meliante era mesmo aquele carrinho que, visto de trás, por algum motivo me lembra um grostoli, e que, apesar de estar fora da minha realidade econômica, nem de longe mereceria o rótulo de “sonho de consumo”. Mas, enfim, cada um com seus “cada uma!”...

Só que os olhos daquele jovem de terninho brilhavam olhando o veloster desfilar lentamente. Foi então que me toquei que nem pra ser ambiciosas as pessoas se esforçam. Vendem a alma ao diabo em horas-extras intermináveis, e não querem mais do que um veloster. Tudo bem desejar um carrinho que custa o absurdo de oitenta mil dinheiros, mas chamar isso de sonho de consumo é exagero. Deve ser coisa de auto estima baixa.

Na verdade eu sempre desconfiei de pessoas que querem saber qual o sonho de consumo dos outros, porque elas não entendem que há pessoas que não têm isso! Aliás, o que ando tendo ultimamente (ou desde os 17 anos) não são sonhos de consumo, mas algo mais para sonhos de desconsumo.

Sabe o que seria legal? Ganhar vários milhões na Mega-Sena e separar uns 100 mil em notas de cinquenta, jogar na churrasqueira, tascar fogo e assar um salsichão. E daqueles bem bagaceiros. Seria “da hora”, como dizem. É claro que eu não queimaria tudo, e que gastaria o resto, mas, em última instância, gastar emocionalmente o dinheiro ganho na Mega-Sena para compensar alguns anos de frustração financeira, dar para caridade, ou queimá-lo na churrasqueira para assar um salsichão são coisas muito parecidas – as três alternativas podem proporcionar um indescritível prazer ao infeliz milionário, e é a isso que viemos, acredite você ou não.

Teoria do terapeuta do Caos:

Felicidade é poder fumar seu tabaco bagaceiro em uma nota de cem dólares (ou comer polenta brustolada no Festiqueijo)

Por falar nisso, vocês viram que o Festiqueijo 2013 vai custar mais de oitenta pilas? Tá de graça, essa bagaça, né? Nem vou falar nada, já disse tudo sobre isso aqui e aqui (é só mudar o ano, que o resto é a mesma coisa). Mas sabem o que também saria legal? Fazer um festival paralelo ao Festiqueijo (e clandestino, obviamente) no melhor estilo desconsumista. Os organizadores percorreriam as colônias em busca daqueles queijos que o pessoal do interior faz e vende na informalidade (esse, aliás, é o VERDADEIRO sabor da serra, se querem saber), a procura também das melhores cachaças produzidas nos porões mais obscuros da zona mais rural, das melhores bolas de pinhão e de uns porquinhos pra fazer os salames. O festival seria animado pelos melhores véios gaiteiros da região (que quase ninguém conhece obviamente) além de atrações alternativas (alternativas de verdade) como as bandas mais underground da serra (que também quase ninguém conhece), enquanto que, do outro lado do salão, ficaria um pessoal responsável por assar os pinhões na chapa e matar os porcos para fazer o salame na hora, ali mesmo, daquele jeito que os colonos sempre fizeram e que constitui a VERDADEIRA cultura da nossa terra. A gente só trairia nossa cultura na questão do preço do ingresso, mantendo um padrão de lucro zero-prejuízo mínimo, já que tudo seria doado pelas pessoas interessadas em fazer uma festa de verdade.

-><-

Este texto inócuo não foi escrito de uma só vez (ninguém tem tempo pra isso). Antes de terminar essa coisa, num outro dia enquanto eu, novamente, almoçava alegremente, voltei a ouvir as vozes (que agora já não sei se vinham da outra mesa ou da minha cabeça) que comentavam sobre a ansiedade de participar do nosso Festiqueijo, que “ia ser muito legal”, etc. Uns gostavam do evento, outros nem tanto. Novamente olhei pela janela do restaurante, como fiz da outra vez (procurando o “sonho de consumo” daquele desconhecido) e pude avistar a entrada do Salão Paroquial (o local onde tradicionalmente ocorre o Festiqueijo). Não pude deixar de lembrar das primeiras edições do evento, quando íamos com a família naquela festa bonita. Lembrei da primeira vez que ganhei “permissão” de ir ao Festiqueijo sozinho - sob as recomendações do pai de “só tomar guaraná” e dos avisos da mãe de “se encontrar a dinda avisa que os crochês estão prontos”. E nós, os garotos dos anos 80, entrávamos, bebíamos o guaraná, entregávamos o recado à dinda... Mas, acima de tudo, encontrávamos amores e amigos que hoje não existem mais, numa festa que não existe mais.

E tive a impressão de que, apesar de tudo, os desconhecidos da mesa ao lado eram animados pelo mesmo espírito que animara uma criança qualquer há 20 anos atrás. A perspectiva de uma simples festa lhes trazia uma alegria ingênua, mas genuína. Se assim fosse, a festa não seria de todo ruim, afinal, as pessoas estavam se permitindo ter sentimentos que hoje estão à beira da proibição, estavam dispostas a se entregar às mãos da inocência e dos instintos puros por algumas horas, a reencontrar amores e amigos de vinte anos atrás com o sorriso de uma criança que esquece o erro do amiguinho e desconhece os podres da vida. Naquele instante eu pensei que ia fazer as pazes com muita coisa do presente e do passado. Eu ia fazer as pazes...

...só que o veloster passou outra vez, lentamente. E todos voltaram a falar de sonhos de consumo e de como ainda tinham muito trabalho pela frente. 

Terminei o copo de suco, passei o guardanapo nos lábios e saí sem comer a sobremesa.




sexta-feira, 19 de abril de 2013

A música da vida (uma quase autoajuda), com final desconexo e possível continuação...

Um amigo chamado Jonatan, autor do blogue Carona com Caronte, músico, filósofo e também iniciado nas artes discordianas, escreveu, recentemente, um bonito texto utilizando a metáfora da vida como uma grande peça musical, a qual somos convidados (ou convocados) a tocar, tendo que adaptar nossas melodias às progressões de acordes que a música da vida nos impõe.

O texto do amigo Jonatan, ao primeiro olhar, pode apresentar ares de autoajuda. Mas não se engane. Ele não é isso. Tanto que me levou a refletir sobre aquela metáfora, de modo que senti, de repente, uma vontade louca (ui!) de reinventar o texto (para não dizer plagiar), apresentando, no entanto, pequenas mudanças em relação ao ponto de vista.

Sem dúvida é bonito pensar a vida como uma música, e pensar que nós podemos ser co-autores dela. Ao longo da leitura, fiquei pensando sobre que música seria a minha vida. Qual estilo? Que ritmo? A que tipos de acordes devo adaptar minha melodia?

A essa altura das reflexões eu já havia imaginado que a metáfora apresentada é controversa. Se eu sou convidado, através da minha existência, a tocar uma melodia sobre uma base harmônica pré-determinada, pergunto: quem é o regente da peça? Quem toca a progressão de acordes? A vida? Dentro dessa metáfora, quem é o maestro? Um ser exterior a ela (como o compositor é exterior à música)? Note que eu ainda não respondi à pergunta “que tipo de música é a minha vida?”

Como bom materialista que sou, inferi, desde logo, que não há autor nessa música. O texto do Carona com Caronte também parece apontar nessa direção. Se não há compositor, a execução é livre. Então é um improviso? Além disso, se há acordes acompanhando minha melodia, devo supor que eles são tocados pelos outros músicos da vida ao meu redor. Então saímos do âmbito pessoal (minha vida, minha música) para o coletivo (minha vida, nossa música). Vamos ver.

Você já tocou numa orquestra ou numa banda? Mesmo que a resposta seja não, é fácil imaginar como seria. Assista a uma apresentação de alguma orquestra, e eleja um instrumento para representar você. Vamos supor que você seja um das flautas, lá num cantinho. É fácil perceber que, sentado lá, naquela cadeira, é possível ouvir alguns instrumentos que soam com mais intensidade (como as outras flautas próximas aos seus ouvidos, ou a retumbante percussão lá atrás), outros com menos intensidade (como aquele violino lá longe), alguns estão momentaneamente calados (como os trompetes, por exemplo), um outro desafinado lá do outro lado, e assim vai... Também não é difícil notar que diferentes instrumentos estão tocando notas diferentes, em tempos diferentes, montando, desse modo, uma base harmônica e rítmica para uma melodia principal (ou não, dependendo da música), ou qualquer coisa que seja bela e agradável aos ouvidos da plateia. Elevando a teoria musical à escala planetária e forçando a metáfora a seus extremos interpretativos, podemos dizer que o mundo é uma orquestra com mais de sete bilhões de músicos. Não há maestro manuseando a batuta (a não ser aquele que dá início e fim às vidas específicas, a morte). Não há composição escrita na pauta. E não há consenso sobre como essa música vai ser interpretada, exceto, talvez, algumas “combinações” aqui e acolá.

A vida é um free jazz de Ornette Coleman interpretada por mais de 7 bilhões de músicos surdos

Já pensou? E agora, como fica ouvir a linha melódica daquela flauta que está lá do outro lado do mundo (ou do outro lado da rua) se a polícia te deixa surdo com seus trombones e tubas? Se a melodia da gaita de boca do bêbado incomoda? Se os clarins dourados dos sacerdotes não param? Se o rufar de tambores da manada de caminhões não cessa? A quem devo ouvir? Que diabos, afinal, eu devo tocar?

A diferença, é claro, é que somos uma banda com relativa mobilidade. Você pode sair da sua cadeira e tocar a nota mais aguda da sua flauta no ouvido do trombonista. Há uma relativa liberdade, embora ela esteja sempre atrelada a certos pa$$aportes e a eventuais consequências. Você já ouviu um free jazz?



Por isso temo que não existam “momentos de tranquilidade” e “momentos de incerteza” como propõe os acordes dominantes e subdominantes de uma música (eles aparecem de forma caótica, quando a massa de instrumentos ao seu redor entende que deve tocar assim, mas não de modo pré-determinado ou fatalista). Bancando o escritor de autoajuda, não é exagero afirmar que você pode se afastar das tubas e se aproximar dos violinos, se achar que pode construir com eles uma harmonia mais bela. Porém, não há certeza de nada (talvez, depois de flertar com os violinos, você venha a sentir falta da fanfarra dos trombones...) A única certeza é que nossos compassos estão numerados e contados. E não é possível ver claramente onde termina.

O nome deste blogue não é Terapia do Caos por acaso

No fim das contas, obviamente, é melhor essa cacofonia delirante do que o silêncio absoluto. Ou não. Não sei. O silêncio terá seus lugares, seus compassos marcados com pausa. Ainda há (embora raros) espaços (geográficos e psicológicos) onde podemos praticar o silêncio. Você pode praticá-lo coerentemente no meio do solo da soprano, ou retirar-se momentaneamente para locais mais sossegados. Da mesma forma, você pode rugir os acordes de sua guitarra em ensurdecedores ritornellos, no mesmo instante em que outro instrumentista da vida chega ao seu fine. Ao mesmo tempo que você executa essa peça de improviso, você pode ser um maestro, dando ordem de da capo, jogando ao mundo uma nova pauta em branco a ser preenchida por um novo alguém que, como você, também se sentirá perdido, a menos que opte por enganar a si mesmo com mentiras ou coisas do outro mundo, obtendo, assim, uma pequena e insossa melodia que só ele ouve (porque é surdo para o mundo), e que considerará perfeita por algum tempo (no máximo até o momento do fine, no entanto). Mas lembre-se que, nessa admirável composição cósmica, não há espectador no recinto (além de nós mesmos). Nem maestro. Portanto, nada deverá ser tachado de perfeito nem de repulsivo se seus ouvidos não puderem ouvir as notas tocadas pelos integrantes da orquestra inteira.

A flauta só é flauta quando alguém a toca

Antes e depois disso ela não passa de um cano de metal bonito e sem sentido. É por isso que todo mundo quer ser o regente da humanidade. De Odin, passando por Amón-Rá, Zeus, Alá e Jesus Cristo, até Barack Obamma ou Hebe Camargo, todos quiseram, querem ou gostariam de ser o regente dessa orquestra e tocar a música que eles considerariam mais apropriada. O mais recente dos deuses já inventados ou manifestados através da cultura humana (o atual “Deus”) é um dos mais fortes candidatos a maestro do mundo, e já conseguiu microfones e potentes amplificadores para fazer sua música soar mais alto que as outras, tentando assim angariar mais instrumentistas à sua causa. Ele não quer que toquemos somente hinos de louvor em seu nome. Ele quer tirar de nós a liberdade de fazer a própria música, do jeito que quisermos e com as pessoas que quisermos. Quer dar moedas a seus músicos mercenários em troca de uma monotonia submissa e sem sentido que destrói a riqueza e a complexidade dos acordes dissonantes. Enfim, ele quer ser o único espectador desse espetáculo, e quer uma música só para ele. Só que não (hehehehe).

La bella polenta

Essa é a canção que tocamos na nossa região (serra gaúcha, pra quem desconhece). Sempre tem algum desafinado no meio, uma ou outra pessoa tocando outra coisa, mas, grosso modo, o que se ouve é um hino de louvor ao trabalho e à conquista de bens materiais. Nossa tônica (talvez até mais do que no “resto do mundo”) é o “trabalho”. Seu refrão é “quem mais pega, mais possui”. Quando as crianças nascem, desde logo lhes são ensinadas as notas a serem tocadas para perpetuar essa canção. Se você vier de fora, de outro lugar, com outra canção diferente... danou-se. Marginaliza-se muito por aqui, por conta de uma certa surdez congênita que impede-nos de ouvir outros arranjos, outras harmonias. Se quiser se dar bem por essas bandas, aprenda La bella polenta.

Sobre a liberdade (o funk também fala da amor)

Agora, se quiser ser “livre” (entre aspas mesmo) e arcar com as consequências, aprenda a ouvir a todos e adaptar sua melodia. Aprenda outros estilos, outras sonoridades. Aprenda a interagir como um ser que cria, não como um robô. A graça do free jazz talvez seja a criação coletiva. Mas não é só criar em grupo, é criar na hora, no improviso, sobretudo ouvindo o que seus companheiros estão tocando. Além disso, também chama a atenção a liberdade, talvez excessiva (não acredito que usei as palavras liberdade e excessiva na mesma frase!) com que esses músicos trabalham. O sábio Tom Zé já disse, certa vez, que a própria escala diatônica (o famoso dó, ré, mi, fá, sol, lá, si) é uma prisão musical, um limite imposto que exclui todas as frequências sonoras existentes de um dó até outro, elegendo apenas 12 notas como um cristo que elege 12 apóstolos! Radical? É que existe mais coisas entre o funk e o erudito do que sonha nossa vã filosofia.

(CONTINUA NO PRÓXIMO CAPÍTULO... TALVEZ...)